- Ficha Técnica
. Autor: Naoki Urasawa
. Coautoria / Cooperador: Takashi Nagasaki
. Supervisão / Base original: Makoto Tezuka (supervisão da Tezuka Productions)
. Obra original: Baseado no arco The Greatest Robot on Earth de Astro Boy (Tetsuwan Atom) de Osamu Tezuka
. Gênero: Ficção científica, Thriller, Mistério, Suspense psicológico, Drama
. Demografia: Seinen
- Resenha
O terceiro volume de Pluto intensifica a profundidade emocional e filosófica da obra de Naoki Urasawa, incorporando de forma quase orgânica o roteiro claro e conciso à expressividade sombria e simbólica da arte. Neste volume, mais do que nos anteriores, a narrativa e a visualidade se entrelaçam, criando uma atmosfera de melancolia que guia a leitura, mesmo quando o texto se ausenta e dá lugar ao silêncio.
Urasawa adota uma cadência intencionalmente lenta, quase reflexiva; a narrativa progride de forma controlada, apoiada por quadros amplos, sombras extensas e uma geografia emocional que se revela mais na composição do que nos diálogos. Como resultado, o subtexto visual não só segue o roteiro, mas o expande, transformando-se no principal condutor da experiência dramática.
A presença contínua da luz difusa e das sombras profundas converte cada espaço em um estado psicológico. À medida que os personagens se aproximam de lembranças dolorosas ou de dilemas morais, a arte tende a escurecer, e a história assume características de fatalismo.
Os flashbacks aparecem não como interrupções, mas como deslizamentos visuais: Urasawa modifica a textura, as bordas e a granulação para indicar a mudança temporal, permitindo que passado e presente coexistam na página como se fossem camadas de uma mesma ferida. Essa abordagem visual proporciona às memórias uma tangibilidade que o roteiro por si só não seria capaz de transmitir — elas se transformam em imagens que pesam, mancham e alteram o curso da narrativa.
A sutileza gráfica expressa de forma mais contundente o tema principal do volume: a humanidade emergente dos robôs. Gestos sutis, olhares quase invisíveis e pausas estratégicas nos quadros conferem aos personagens mecânicos uma profundidade emocional perturbadora. A narrativa verbal indica que eles estão cultivando emoções; a arte comprova. Urasawa investiga essas microexpressões com exatidão cirúrgica, transformando cada hesitação em um ponto de tensão e cada silêncio em um instante de vulnerabilidade. Ao ler o volume, percebe-se que os personagens se tornam mais humanos não por meio de declarações, mas pela forma como ocupam o espaço da página.
Simultaneamente, a violência aparece de maneira repentina, quase invasiva. Quando a narrativa demanda impacto, a arte recorre à fragmentação de quadros e cortes abruptos que interrompem o ritmo reflexivo. Essa quebra visual enfatiza a violência como algo invasivo, uma força que abala a estabilidade emocional das páginas anteriores. A alternância entre calma e impacto, entre reflexão e ruína, gera uma dinâmica que reflete a própria dúvida sobre o que significa viver em um mundo marcado pela guerra e atormentado pela tecnologia.
Dessa forma, o terceiro volume de Pluto se consolida como um marco de maturidade na série, evidenciando a habilidade de Urasawa em transformar a interação entre texto e imagem em um recurso narrativo que vai além da simples ilustração. Este é um capítulo que não só impulsiona a história, mas também aprofunda sua natureza, investigando o que há de mais humano — e mais perturbador — nas fronteiras entre memória, máquina e emoção.
Resenha dos volume anteriores: Pluto
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