O Homem que Passeia - Jiro Taniguchi.

O Homem que Passeia (Aruku Hito), publicado em 1992, é um dos mangás mais representativos do estilo contemplativo de Jiro Taniguchi. O trabalho se enquadra em um subgênero chamado iyashikei, cujo objetivo é oferecer ao leitor um sentimento de tranquilidade e bem-estar. Ao contrário dos mangás habituais, que geralmente apresentam tramas organizadas e conflitos claros, O Homem que Passeia opta por uma abordagem minimalista e poética.

A narrativa não tem um enredo principal, mas sim trechos diários do personagem principal - um homem de meia-idade que explora sua vizinhança por meio de longas caminhadas. Nesses deslocamentos, ele contempla a natureza, interage com animais, conhece pessoas novas e redescobre a cidade onde reside.

A estrutura episódica e a falta de um principal conflito intensificam a impressão de fluidez e leveza. Cada capítulo atua como uma pequena amostra do dia a dia, sem a urgência de um final grandioso. Esta opção narrativa conecta o mangá à literatura zen e a obras visuais que priorizam a experiência sensorial em detrimento da sequência narrativa.

O personagem principal pode ser visto como um flâneur, termo difundido por Charles Baudelaire para caracterizar o viajante urbano que vagueia sem rumo, absorvendo o ambiente à sua volta. Tal como o flâneur tradicional, o homem que passeia não tem um propósito definido; seu prazer reside na própria caminhada e na descoberta dos pormenores da cidade.

A arte de Jiro Taniguchi é um dos destaques do trabalho. O seu traço preciso e realista retrata fielmente os ambientes urbanos, a arquitetura e os elementos naturais, resultando em um cenário rico e envolvente. A estrutura das páginas promove a contemplação, apresentando quadros amplos e sequências silenciosas que realçam o tempo e o espaço.

O Homem que Passeia é um trabalho único, que questiona os padrões narrativos ao converter a caminhada numa vivência filosófica. O seu ritmo devagar e a sua estética minuciosa fazem deste mangá um convite à contemplação, sendo uma leitura perfeita para quem procura um intervalo na agitação do mundo contemporâneo.

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