Neste segundo volume, o processo de transformação de Siddhartha Gautama é analisado com sensibilidade por Samu Tezuka. A história, até agora focada no jovem príncipe aprisionado no luxo e na segurança do palácio de Kapilavastu, começa a ultrapassar as barreiras físicas e simbólicas desse confinamento. É neste instante que o protagonista se depara com as realidades nuas da vida humana: a enfermidade, a velhice e a morte, funcionam como marcos profundos no despertar espiritual de Siddhartha. A vida, até então estática e artificialmente harmoniosa, passa a ser questionada em sua essência.
Os capítulos de Tezuka são menos uma biografia de Buda e mais uma meditação visual e narrativa sobre o sofrimento, a desigualdade e a procura por significado. Ao se deparar com a transitoriedade da vida, Siddhartha não se limita a observar a dor alheia, mas começa a vivenciá-la como sua própria. Este movimento de um olhar distante para uma empatia genuína sinaliza o começo da sua mudança.
Agora com a companhia de Tatta, um marginal com a incrível capacidade de possuir corpos de animais, Siddhartha inicia sua jornada pelo mundo além das castas elevadas. Tatta é como um reflexo distorcido: selvagem, impulsivo e impiedoso, porém profundamente ligado ao padecimento de sua população. Por meio dele, Siddhartha se conecta com as partes mais negligenciadas da sociedade, aquelas que a nobreza ignora. Esta experiência o faz questionar não apenas as causas sociais do sofrimento, mas também as estruturas que o apoiam - a opressão das castas, a violência dos senhores, a força da ignorância.
Migaila, uma jovem bandoleira que, à primeira vista, parece apenas mais um obstáculo em sua trajetória. Contudo, conforme a relação entre ela e Siddhartha evolui, fica claro que Migaila representa a tensão entre o anseio e a empatia, entre o impulso de sobrevivência e a chance de mudança. Siddhartha vivencia, de maneira mais intensa, as contradições do mundo: a demanda por justiça diante da violência, o poder do amor frente ao sofrimento.
À medida que a história progride, Siddhartha também presencia a brutalidade do conflito e do poder. A imagem de Bandaka, um guerreiro ambicioso e impiedoso, representa o aspecto mais destrutivo do ser humano. Por meio dele, Tezuka expõe não apenas as atrocidades da dominação e da vitória, mas também as consequências devastadoras da vaidade e do orgulho. Ao presenciar a dor provocada por tais disputas de poder, Siddhartha se distancia ainda mais da vida terrena.
A escolha de deixar o palácio, realizada nos últimos capítulos desta série, não é vista como um ato heroico, mas como um resultado lógico e doloroso de tudo o que foi presenciado. Siddhartha não abandona uma vida luxuosa; ele a abandona por entender que o verdadeiro desafio reside em entender e amenizar o sofrimento humano. Esta desistência é o início da sua trajetória espiritual.
Durante esses capítulos, Osamu Tezuka edifica uma narrativa que é simultaneamente épica e íntima. A obra possui uma densidade incomum nos mangás, graças ao seu traço expressivo, aos diálogos repletos de humanidade e ao equilíbrio entre humor e tragédia. Trata-se de uma ponderação intensa sobre o significado de despertar para o próximo, sobre a bravura de deixar o conforto em prol da verdade e, sobretudo, sobre a força transformadora da compaixão.
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