Sunny (Volume 3) - Taiyo Matsumoto.

Nos últimos capítulos de Sunny, de Taiyo Matsumoto, o clima de melancolia e resignação se intensifica conforme as crianças do orfanato Hoshinoko começam a perceber com mais nitidez a realidade de suas existências. O Nissan Sunny, que ao longo da história atuou como um refúgio e um emblema de esperança, gradualmente perde sua encanto, espelhando o desenvolvimento inevitável dos personagens principais. A infância que parecia sem fim agora mostra indícios de que está se aproximando do fim, e cada um deve descobrir um método para gerir essa mudança.

Haruo, sempre inquisitivo e resistente às normas, sente o impacto da transformação de forma silenciosa. Desde o começo da narrativa, a sua agressividade agia como uma proteção contra a dor do abandono, porém, agora ele se vê obrigado a encarar a realidade que sempre buscou fugir. O receio do futuro começa a surgir em sua mente, levantando questões sobre o que ocorrerá quando ele tiver que deixar o orfanato. Ele não possui respostas, porém, pela primeira vez, compreende que não tem como escapar de suas aflições.

Por outro lado, Sei possui um dos arcos mais empolgantes da fase final. Ele sempre foi o menino mais reflexivo, refugiando-se no Nissan Sunny e construindo um universo de fantasias onde tudo era mais tolerável. Contudo, ao longo desses capítulos, ele compreende que sua imaginação não é capaz de lhe oferecer proteção permanente. Em uma das cenas mais emblemáticas do quadrinho, ele se despede silenciosamente do veículo, entendendo que precisa trilhar sua própria trajetória fora daquele ambiente. Esta despedida não ocorre de maneira grandiosa, mas sim num momento repleto de simbolismo, onde o próprio veículo parece menos receptivo do que anteriormente.

Durante toda a história, Kiiko, que nutriu a esperança de que sua mãe voltaria para buscá-la, enfrenta uma das maiores desilusões. Cada novo dia sem notícias começa a minar a confiança na promessa de retorno. Ao presenciar a adoção de outra criança, uma combinação de inveja e desespero a invade. O golpe final ocorre quando ela finalmente reconhece que foi abandonada de forma irreversível. Este instante, representado através de um olhar vazio e um silêncio intenso, causa um impacto significativo, sem a exigência de palavras dramáticas ou ações exageradas.

Junsuke, o membro mais jovem do grupo, simboliza a pureza que persiste mesmo diante das adversidades da vida. Mas ele também começa a entender que o mundo não é equitativo. Ao dialogar com os adultos do orfanato, ele faz questionamentos complexos, buscando compreender por que algumas crianças conseguem encontrar um lar, enquanto outras permanecem abandonadas. As respostas que obtém são imprecisas e desapontantes, e sua frustração é evidente. Pela primeira vez, ele compreende que o crescimento implica reconhecer que nem todas as questões possuem uma solução.

Megumu, sempre reconhecida como forte e autônoma, expõe sua fragilidade nos capítulos finais. Embora tenha construído uma imagem, ela teme tanto quanto os demais ser esquecida e viver sem um lugar para chamar de lar. Este temor, que é compartilhado silenciosamente por todas as crianças do Hoshinoko, assombra cada uma delas à medida que se aproxima o momento inescapável de crescer.

Nestes capítulos, as despedidas também ganham destaque. Algumas crianças deixam o orfanato, seja por terem sido adotadas ou porque finalmente encontraram suas famílias. Cada partida provoca um vazio naqueles que permanecem, e o temor de serem os próximos - ou de permanecerem para sempre naquele lugar - se intensifica em cada um. O ciclo do orfanato prossegue, com a chegada de novas crianças, porém a sensação de incerteza nunca se dissipa totalmente.

O desfecho do mangá não apresenta uma conclusão definitiva. Não existe um grande acontecimento que mude a vida de todos, nem um final que solucione as questões dos personagens. Em vez disso, Matsumoto escolhe um final sutil e realista: a vida no Hoshinoko continua sua trajetória. O último registro do Nissan Sunny mostra-o estacionado no mesmo local habitual, porém sem as crianças a bordo. Este pequeno detalhe, aparentemente insignificante, resume a mensagem principal do trabalho - a infância se vai, os sonhos se transformam e, um dia, todos devem abandonar o carro para encarar a realidade.

Taiyo Matsumoto, com seu olhar sensível e arte expressiva, edifica uma história sobre evolução, perda e aceitação. Sunny não é uma narrativa de superação no sentido convencional, mas sim uma viagem para aprender a lidar com as dores e incertezas da vida. Em última análise, não existem garantias de finais felizes, apenas a certeza de que a vida segue adiante.

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