Alma (Volume 4/Final) - Shinji Mito.

A alma não é o que se tem. É o que se busca, mesmo quando tudo já acabou.

Com o quarto volume, Alma alcança seu final — e o faz com uma moderação incomum. Sem grandes surpresas, revelações impactantes ou embates decisivos. A série termina exatamente como começou: em silêncio, observando a derrocada do mundo e a continuidade de um ato humano. Shinji Mito conclui sua narrativa com a mesma delicadeza que a conduziu desde o começo, confirmando Alma como uma das histórias mais melancólicas, delicadas e sinceras do mangá atual.

O fim da estrada não é o fim da jornada.
Ray e Lambda seguem até o último ponto do mapa. O que encontram lá não é salvação, nem respostas. É uma estação antiga, desativada, com vestígios de tecnologia e mensagens deixadas para ninguém. Em uma das últimas cenas, Ray ouve uma gravação do passado — uma voz humana falando sobre o medo de desaparecer, sobre a vontade de deixar algo, qualquer coisa, para trás. Esse eco final dá forma ao que Alma sempre tentou comunicar: a alma está na tentativa, no registro, no ato de continuar mesmo quando o fim já aconteceu.

Lambda, que começou como alívio cômico, termina como símbolo.
Ele é a memória em movimento, o humor que atravessa a tragédia, o olhar que percebe sem julgar. Sua relação com Ray se torna mais fraterna, mais silenciosa. Eles não precisam mais explicar — estão juntos porque ainda há caminho. Ainda há tempo. Mesmo que não se saiba para quê.

Visualmente, Mito atinge seu auge.
Os últimos capítulos são compostos de páginas quase estáticas, onde cada enquadramento carrega peso emocional. Há uma economia de palavras que exige do leitor não pressa, mas pausa. O autor convida a respirar junto com a página — a sentir o vento, o pó, a solidão. As expressões de Ray, cada vez mais fechadas, revelam menos do que antes, mas dizem mais.

A escolha de Mito é ética: não oferecer catarse.
O mundo não é restaurado. A humanidade não volta. O protagonista não encontra um novo lar, nem uma nova comunidade. O que há é a recusa de desistir. Alma fecha como uma prece sem deus — um grito surdo no fim dos tempos, feito apenas para não desaparecer em silêncio.

Conclusão crítica

O volume final de Alma não entrega esperança fácil, nem fechamento confortável. Em vez disso, oferece algo mais raro: coerência emocional. Shinji Mito encerra sua série com integridade estética e temática, apostando em um leitor disposto a caminhar com Ray até o fim — mesmo sem saber o que há depois.

No fim, Alma é sobre isso: continuar por continuar. Porque talvez seja nisso, justamente nisso, que resida o que chamamos de alma.

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