Páginas: 192
Editora: Panini.
A travessia continua. O mundo se despede em silêncio.
Alma continua seu percurso pela melancolia e pela procura de significado num mundo que já não tem mais a capacidade de responder. Embora os capítulos iniciais tenham estabelecido um cenário desolado e mostrado os dilemas de Ray perante a descoberta sobre Rice, estes capítulos aprofundam-se nas ruínas, tanto físicas quanto existenciais, do que sobrou.
A viagem de Ray e Lambda os conduz a regiões progressivamente desoladas, onde a natureza começa a recuperar gradualmente o território da civilização extinta. São passagens quase contemplativas, onde o silêncio das páginas prevalece sobre as conversas. Shinji Mito é mestre na técnica do "quadro vazio repleto de significado", criando cenas onde o vento ou o céu encoberto têm mais impacto dramático do que qualquer ação.
Nos capítulos subsequentes, surgem novos vestígios do passado: escombros de escolas, passagens subterrâneas, placas deterioradas e um antigo centro de dados que ainda funciona parcialmente. Aliás, é neste local que Ray vivencia um ponto crucial da história - ao acessar fragmentos de informações deixadas por seres humanos conscientes de que sua existência estava próxima. São gravações, áudios e textos breves, testemunhos de medo, nostalgia, esperança e adeus. Alma, mais uma vez, foge do sentimentalismo explícito: é no desaparecimento, na desintegração, que reside a emoção.
No entanto, o efeito mais notável desses capítulos é o ressurgimento de algo que Ray considerava desaparecido: uma nova vida. No entanto, o conflito entre a expectativa e a realidade volta de maneira dolorosa - o ser que ele encontra é um híbrido inacabado, uma combinação de inteligência artificial e organismo biológico sem consciência total. A esperança que surge rapidamente se dissipa, e Ray se depara novamente com o tema principal do trabalho: o que nos faz humanos?
Lambda, como de costume, faz observações ácidas, quase inocentes, que enriquecem a cena com uma ironia sutil, mas nunca desleal. A sua presença ainda atua como um ponto de equilíbrio - talvez até como um emblema da continuidade da lembrança e da companhia, mesmo quando não existem respostas explícitas.
A arte continua maravilhosa, com páginas duplas silenciosas que atuam como momentos de meditação. O mito alterna entre perspectivas amplas — que intensificam o isolamento dos personagens — e detalhes minuciosos nos olhos, nas mãos, nas ações mínimas que revelam mais do que o texto.
Estes capítulos não proporcionam um ápice - proporcionam uma travessia. E é precisamente isso que faz Alma tão única: sua dedicação ao vazio, ao silêncio, ao fardo de prosseguir mesmo quando não se tem certeza de que algo aguarda à frente.
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