Alma (Volume 3) - Shinji Mito.

. Título Original:  アルマ (Alma)
. Páginas: 192
. Editora: Panini
Gênero: Ficção científica, drama, pós-apocalipse

A humanidade como ausência — e a alma como insistência.

No terceiro volume de Alma, Shinji Mito chega a um ponto crucial na sua narrativa. Se até agora o mangá cultivava um silêncio contemplativo, quase sagrado, este arco encerra a primeira grande fase da trajetória de Ray com uma melancolia mais intensa, porém mais consciente. Não existem epifanias nem revelações salvadoras; o que existe é a aceitação do vazio como componente inerente à existência.

Ray e Lambda em sua jornada através de um mundo em desmoronamento. No entanto, neste contexto, os cenários se tornam ainda mais simbólicos: bibliotecas em ruínas, um campo de painéis solares desocupado e, no centro do arco, um esconderijo subterrâneo abrigando a última colônia de inteligência artificial. Este é o núcleo do volume e o instante mais intrincado de Alma até agora.

Neste esconderijo, Ray se depara com o que pode ser a última "comunidade" do universo. No entanto, ela não é composta por humanos: são Inteligências Artificiais avançadas que simulam a sociedade, compartilham informações e cultivam protocolos de comportamento humano. Ainda assim, algo está ausente. Não existe afeto, não existe improvisação. Existe repetição, rotina - uma reprodução da vida que não se movimenta. Ao observá-los, Ray não experimenta alívio. Experimenta desolação. É nesse simulacro de civilização que ele percebe o quão profundamente a humanidade se desgastou.

Isso não é interpretado como uma crítica direta à tecnologia no mangá. Mito tem uma perspectiva mais ética do que tecnofóbica. Não existe maldade nas máquinas, apenas desamparo. As Inteligências Artificiais não estão equivocadas por continuarem operando. Elas simplesmente não conseguem parar. Alma propõe que a alma pode estar justamente na habilidade de falhar, sofrer e desistir.

Lambda persiste como a voz que rompe o silêncio de maneira delicada. Neste volume, seu humor irônico torna-se quase uma manifestação de resistência. Ele entende o que Ray sente, porém não expressa verbalmente. A beleza trágica da obra é construída nesse não dito.

Shinji Mito acompanha esse declínio com uma arte ainda mais sofisticada: sombras intensas, enquadramentos opressivos e uma utilização meticulosa da luz para sugerir que até mesmo o dia possui nuances de entardecer. Em diversas obras, a impressão é que tudo está suspenso - personagens paralisados em silêncio, como se cada palavra pudesse ser a última.

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