Páginas: 192.
Editora: Panini.
Gênero: Ação, Horror, Comédia Negra, Sobrenatural, Shonen.
O sangue é só o começo.
No universo de Chainsaw Man, a vida é tão valiosa quanto sua utilidade e a de Denji, um jovem órfão e endividado até a medula óssea, é praticamente inútil. Com o seu cão-demônio Pochita, Denji comercializa órgãos, come pão com geléia quando tem sorte e arrisca a vida caçando demônios por pequenas recompensas. Ele não almeja reconhecimento ou justiça, mas apenas o prazer de passar manteiga no pão ou abraçar alguém antes de adormecer. A pobreza física e emocional que cerca o personagem principal não é exagerada: é nua, diária, suja - e, portanto, verdadeira.
O capítulo inicial apresenta de maneira brutal esse universo onde o grotesco e o patético caminham juntos. Depois de ser enganado pela yakuza e brutalmente assassinado, Denji é revivido por Pochita, que se entrega para se tornar seu coração. Portanto, surge o homem-motosserra, uma anomalia tão ruidosa quanto sanguinária. Contudo, a mudança não o eleva; apenas o impulsiona para uma nova forma de exploração.
É nesse momento que surge Makima, uma mulher misteriosa e manipuladora que propõe a Denji uma nova existência – mas com condições. Ela o trata literalmente como um cão, fornecendo-lhe comida, abrigo e, sobretudo, uma aparência de carinho. Denji, necessitado de qualquer interação humana, acolhe com gratidão. As suas novas metas são modestas: um local para residir, comida de qualidade e, quem sabe... tocar nos seios de alguém. A comédia de mau gosto aqui vai além do humor vulgar; é o retrato trágico de alguém que nunca teve a oportunidade de amadurecer emocionalmente. Denji desconhece seus desejos, pois nunca teve a oportunidade de sonhar.
O cenário é degradado, urbano, quase sufocante. O derramamento de sangue não cessa e a cena é apresentada com uma energia quase punk. Contudo são nos instantes mais quietos que o mangá se destaca: seja na expressão inerte de Denji ao receber um prato de comida quente, ou na maneira como ele observa os demais, buscando compreender o que é considerado "normal".
Nos capítulos subsequentes, a história se amplia com a adição de novos personagens: Aki Hayakawa, um caçador de demônios idealista e estoico, e Power, uma entidade demoníaca sanguinária e egoísta que se une ao grupo. A conexão entre eles constitui um trio inusitado, repleto de tensão cômica e explosões emocionais. Aki, que perdeu tudo para os demônios, vê Denji como um idiota sem responsabilidade. Por outro lado, Power simboliza o caos total - mas oculta traumas que ecoam com os de Denji.
O sexto capítulo, em que Denji embarca numa missão para resgatar o gato de Power, expõe um lado mais pessoal da personagem e demonstra que até mesmo monstros sanguinários são capazes de amar. O ápice deste primeiro arco acontece com mais uma traição - Power entrega Denji a um demônio, evidenciando que no mundo em que vivem, até mesmo os vínculos mais delicados podem ser negociados. No entanto, Denji persiste, não somente com vigor físico, mas com uma persistente recusa em se render. Ele se dedica ao gato Power como se fosse seu, pois compreende o que significa perder tudo.
No término da obra, Chainsaw Man ainda não é uma narrativa de redenção. Trata-se de uma narrativa sobre a sobrevivência. Sobre indivíduos quebrados buscando sentido em suas existências. Tatsuki Fujimoto escreve com o entendimento de quem entende o absurdo humano e o acolhe sem preconceito. O resultado é um trabalho que mescla humor banal, brutalidade extrema e uma sinceridade emocional chocante.
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