Mushishi (Volume 1) - Yuki Urushibara.

Entre o Visível e o Invisível

Mushishi é um mangá de autoria e arte de Yuki Urushibara, lançado entre os anos de 1999 e 2008. O trabalho combina fantasia, filosofia e elementos do folclore japonês em contos episódicos de atmosfera profunda e reflexão.

''Eu não acredito completamente (por enquanto) em assombrações e espíritos, mas eu penso muito que ''seria bom se existissem''. (Por isso, eu fico muito feliz com as histórias sobrenaturais de confiança das minhas pessoas próximas) Os ''Mushis'' são frutos desse dilema e também são uma forma de ''assombração''. A propósito, pareceu que tinha uma ''assombração'' por perto até pouco tempo atrás. Queria ter visto.''

Premissa

O mangá se passa em um Japão fictício entre os períodos Edo e Meiji e gira em torno de Ginko, um “mushi-shi” — um pesquisador de mushi, formas de vida primordiais e invisíveis para a maioria das pessoas. Os mushi não são necessariamente bons ou maus; eles simplesmente existem, interferindo nos humanos de formas estranhas e misteriosas. Ginko viaja de vila em vila ajudando pessoas afetadas por essas criaturas, ao mesmo tempo que investiga seus mistérios.

Estilo e narrativa

A arte de Urushibara é simples, mas bela e detalhada quando se trata da natureza — o cenário é parte essencial da atmosfera de Mushishi. A narrativa é episódica, cada capítulo funciona quase como um conto independente, com começo, meio e fim. Mas há um fio contínuo na figura de Ginko e nos temas existenciais que a obra aborda.

Temas

  • Natureza e humanidade: A convivência com o estranho, o desconhecido e o invisível.

  • Memória, perda e cura: Muitos episódios tratam de lutos, traumas e da reconciliação com o passado.

  • Espiritualidade e ciência: Ginko representa um meio-termo entre o xamã e o cientista, tentando entender o mushi racionalmente, mas respeitando sua natureza misteriosa.

Resenha

Com a obra Mushishi, Yuki Urushibara faz uma ação incomum no mangá atual: rejeita o barulho da ação, violência e progressão linear, dando lugar ao silêncio, à contemplação e ao espanto. Nos dois primeiros volumes, que abrangem os dez primeiros capítulos, o que se apresenta ao leitor é menos uma história convencional, mas uma sequência de contos trágicos e poéticos sobre a fronteira do ser humano e o vasto universo natural que o rodeia, ultrapassa e, frequentemente, é negligenciado.

Aqui, os mushi, seres que habitam a origem da vida, atuam como metáforas ambíguas. Eles não simbolizam o bem ou o mal; são forças, presenças, expressões de algo que precede a moralidade. A sua atitude reflete a sua própria essência: indiferente, persistente, orgânica. Cada capítulo apresenta uma pequena história onde um indivíduo é impactado por essas entidades — no entanto, o verdadeiro foco da narrativa é o efeito existencial dessa interação, e não a solução prática do problema.

Ginko, o mushishi, é crucial pela sua postura diante do inexprimível: ele não luta, não julga, não domina a alteridade. Ele observa, escuta e busca criar uma maneira de coexistência, mesmo que temporária, entre o humano e o não-humano. Curiosamente, essa atitude evoca uma ética ecológica radical, onde o ser humano precisa reconhecer que não é o centro do universo, mas apenas mais um ser em um sistema muito maior.

Urushibara organiza cada seção como uma metáfora. Por exemplo, em "A Verde Cegueira", a habilidade de ver mushi se transforma numa maldição - a visão excessiva é um tipo de cegueira. Em "Dentro da Gota", o anseio de regular a precipitação conduz ao caos climático, numa crítica ambiental explícita e lírica. Em "A Semente Dorme sob a Neve", o tempo deixa de ser uma linha ininterrupta e se transforma num ciclo onde abnegação, evolução e perda se intersectam. Diferente das histórias convencionais que buscam a catarse ou a lição moral, Mushishi proporciona melancolia e aceitação.

O mangá adota uma arte minimalista, na qual os espaços vazios são tão relevantes quanto os ocupados. Frequentemente, a paisagem natural se destaca: montanhas, florestas, neblina e rios dominam as pinturas, formando um mundo que parece respirar por si só. Não existe aceleração no ritmo das páginas, nem exageros visuais. Urushibara utiliza a pausa como recurso de linguagem - algo incomum na indústria dos quadrinhos, particularmente no Japão, onde a dinâmica é predominante.

Adicionalmente, Mushishi se relaciona com uma tradição cultural japonesa que aprecia o transitório e o sutil - o mono no aware, ou a percepção da fugacidade das coisas. Este princípio permeia todos os capítulos iniciais. Os personagens impactados pelos mushi raramente são salvos ou "recuperados"; o máximo que conseguem é um estado de paz, frequentemente ligado à perda. Portanto, a narrativa questiona a lógica do avanço e da vitória, propondo uma alternativa que se baseia na aceitação do ciclo natural — nascimento, sofrimento, mudança, morte.

Finalmente, podemos dizer que Mushishi, nos primeiros dez capítulos, se apresenta como uma crítica sutil à presunção do conhecimento humano e à sua incessante busca para dominar o mundo natural. Durante a atual crise ambiental mundial, a leitura deste livro adquire uma nova importância: o mushi, invisível, não é somente um fenômeno folclórico, mas também um emblema das forças que fogem ao controle humano, e que cobram um preço sempre que são negligenciadas ou mal interpretadas.

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