Volume 1 (Capítulos 1–13)
O peso da honra sob a lama do poder
Satsuma Gishiden conduz o leitor por uma história intensa e pungente, situada no Japão do século XVIII, onde a ideia de lealdade é posta à prova até os extremos do inacreditável. Nos treze primeiros capítulos, Hiroshi Hirata narra a história dos samurais do clã Satsuma, enviados ao Edo pelo xogunato Tokugawa para trabalhar na construção de canais de irrigação. Trata-se de uma tarefa humilhante, brutal e politicamente intensa.
Hirata não produz um mangá voltado para o entretenimento — seu estilo se assemelha mais a um documento histórico estilizado, onde diálogos e monólogos são densos como tratados. Desde os capítulos iniciais, o escritor não se limita a relatar os acontecimentos, mas também os situa no contexto político e social do Japão feudal. Os textos extensos, frequentemente quase poéticos, expõem uma dura crítica à corrupção do xogunato e à falsidade do sistema feudal, onde a honra é usada como instrumento de poder.
A arte de Hirata realça a dureza do material. Os traços semelhantes a xilogravuras, intensificando a impressão de antiguidade e tensão contínua. Quando a violência se manifesta, ela não é inocente: é áspera, impura e profundamente simbólica. Cada retrato representa rugas, marcas de expressão, expressões fortes - não existe beleza ideal, apenas a aparência de homens que vivem e morrem sob o código do clã.
Neste começo do trabalho, os personagens não são realmente desenvolvidos como seres com sutilezas psicológicas. Eles agem mais como personificações do ethos Satsuma: inflexíveis e orgulhosos. O foco recai sobre personagens como Tateoka Bunnosuke, um dos líderes do grupo, cujo comportamento inflexível na proteção da honra do clã já nos primeiros capítulos demonstra o tom melancólico que a história irá adquirir. A imagem do "guerreiro pobre" se destaca, não como figura secundária, mas como emblema de resistência moral contra uma elite disfarçada.
Um dos elementos mais fascinantes deste volume é a constante presença de lama, tanto literal quanto metaforicamente. Os operários estão envoltos em terra, suor e vergonha. Mas essa sujeira também é a do sistema, que arrasta seus cidadãos para um pântano de promessas enganosas, desigualdade e repressão. Hirata sugere que o autêntico espírito de guerreiro não se manifesta no campo de batalha, mas no pântano da submissão imposta.
Pontos Importantes
1 - Texto excessivamente denso.
A quantidade de texto em muitos quadros pode cansar leitores acostumados a narrativas visuais mais leves. Os monólogos são longos, os trechos narrativos explicativos quebram o ritmo da ação e os termos históricos podem ser difíceis sem conhecimento prévio. Leitura lenta e por vezes árida. Isso pode afastar quem busca uma experiência mais fluida ou visualmente dinâmica.
2 - Personagens ainda pouco diferenciados.
Nos capítulos iniciais, muitos personagens parecem funcionar mais como símbolos do espírito Satsuma do que como indivíduos com personalidade distinta. Há pouca nuance psicológica ou evolução pessoal — o foco está no coletivo e na postura ética. A falta de protagonismo forte e carismático dificulta o apego emocional imediato aos personagens.
3 - Violência gráfica e crueza podem incomodar.
Embora justificada pelo realismo da obra, a brutalidade da vida retratada é constante e por vezes chocante. A combinação de fome, humilhação, doenças e castigos corporais pode ser emocionalmente desgastante. Não é um mangá “agradável” — é deliberadamente incômodo.
4 - Enredo difuso e episódico.
Os capítulos muitas vezes funcionam como vinhetas ou cenas fragmentadas, com mudanças bruscas de foco. A narrativa ainda não se amarra num arco contínuo e forte — algo que pode melhorar nos volumes seguintes. A sensação é de que de fato estamos acompanhando uma crônica, não uma trama com início, meio e fim claramente definidos.
O primeiro volume de Satsuma Gishiden não é uma leitura simples, porém é extremamente gratificante. Sua dedicação à história e à crítica social o tornam uma obra única no âmbito do mangá histórico. A opção de apresentar os guerreiros de Satsuma quase como mitos, mas subjugados por uma ordem injusta, converte o mangá em um protesto contra a manipulação da honra pelos detentores do poder.
Trata-se de uma leitura que requer concentração — porém recompensa esse esforço com uma vivência estética e política inédita no gênero. Um épico sobre a lama e a alma samurai.
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