A Menina do Outro Lado - Nagabe

. Título original: とつくにの少女 (Totsukuni no Shōjo)
. Editora (Brasil): DarkSide Books (selo DarkMangá)
. Gênero: Fantasia sombria, drama, slice of life
. Volume 1 de 11
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Resenha

O primeiro volume de A Menina do Outro Lado nos apresenta um mundo que evoca a atmosfera dos contos de fadas clássicos — encantador, porém sombrio, repleto de símbolos e avisos.  A obra de Nagabe é uma parábola gótica em que a simplicidade do traço e da narrativa oculta uma profundidade emocional e moral intrincada.

Shiva, uma menina humana sob a proteção de uma criatura amaldiçoada a quem chama de Mestre, aparece logo nas primeiras páginas.  Ele é uma figura alta, encapuzada, com chifres e pele escura — uma entidade que representa o "outro", o distinto, o aterrorizante.  Contudo, seu comportamento contrasta com sua aparência: ele é amável, protetor e quase paternal.  Um dos eixos principais da narrativa é a tensão entre forma e essência.

O mundo em que vivem está dividido por uma maldição: os "de fora" (outsiders) são temidos por possuírem uma doença que, com um simples toque, transforma os humanos em criaturas semelhantes a eles.  Entretanto, a menina parece não ter medo — trata o Mestre com afeto e familiaridade, sem nunca questionar sua natureza.  Essa mudança nos papéis convencionais — o monstro que cuida, a criança corajosa — traz um novo frescor ao gênero.

O ritmo do primeiro volume é intencionalmente lento.  Nagabe utiliza o silêncio como forma de comunicação, empregando grandes espaços em branco, expressões contidas e diálogos reduzidos.  É nesse vazio que a tensão aumenta.  Conforme a narrativa avança, a atmosfera fica progressivamente mais desconfortável, como se algo estivesse constantemente à beira de se quebrar — seja a inocência de Shiva, seja o frágil equilíbrio entre os dois mundos.

Em termos visuais, o mangá utiliza um preto e branco texturizado, com uma forte influência do estilo europeu.  Não existem splash pages atraentes nem sequências de ação explosiva.  Tudo é contido, sofisticado e reflexivo.  Essa estética intensifica a sensação de solidão e estranheza que permeia a obra.

O primeiro volume atua como uma introdução enigmática, focando mais em criar sensações e dilemas morais do que em fornecer respostas.  Qual é o motivo de Shiva estar ali?  Onde se encontra sua família?  O que ocorreu com o mundo?  As respostas são postergadas, porém a conexão emocional entre os protagonistas já foi meticulosamente estabelecida.

Em essência, A Menina do Outro Lado é uma narrativa que aborda o cuidado, a alteridade e o medo do desconhecido. No entanto, também retrata como o afeto pode prosperar mesmo nos contextos mais hostis.  O primeiro volume convida o leitor a cruzar a linha que divide os mundos e a reconsiderar onde, de fato, está o perigo.

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