Resenha
O terceiro volume de Dead Dead Demon’s Dededede Destruction aprofunda ainda mais o contraste entre o extraordinário e o cotidiano, característica distintiva da obra de Inio Asano. Enquanto os dois primeiros volumes expunham o cenário e os personagens sob a ameaça constante e silenciosa da nave alienígena, este aprofunda a tensão sociopolítica e o peso existencial que permeia cada página — mesmo quando disfarçado de humor ou trivialidades adolescentes.
A rotina como anestesia
A primeira metade do livro ainda se baseia na repetição quase monótona da rotina das personagens: escola, videogames, conversas triviais. Trata-se de um slice of life que, à primeira vista, parece simples e sem pretensões. No entanto, essa decisão narrativa é fundamental para Asano. Ele retrata com precisão o tédio entorpecente da juventude atual, que cresceu sob a constante presença de naves alienígenas, mas já se habituou ao terror como parte do cotidiano.
Kadode permanece introspectiva, lidando com suas crises de identidade e dúvidas sobre o propósito da vida. Por outro lado, Ouran mantém sua persona enérgica e imprevisível, embora suas intenções e reações se tornem cada vez mais ambíguas. É nesse contraste entre apatia e histeria que o mangá ganha parte de sua intensidade emocional.
O mundo lá fora começa a ruir
O terceiro volume sinaliza o começo de uma alteração no tom da série: o mundo político da invasão extraterrestre começa a se infiltrar de forma mais intensa. Fomos expostos a movimentos radicais, informações distorcidas e uma retórica militarista que se dissemina entre os adultos. A introdução de um novo personagem com participação mais ativa nos bastidores da crise (como o jornalista ou pessoas relacionadas ao governo) indica que o contexto de ficção científica se tornará progressivamente mais importante — mesmo sem desviar o foco do aspecto humano.
Assim, este volume representa um ponto de virada: a adolescência alienada começa a enfrentar as responsabilidades do mundo adulto.
Arte como comentário
O estilo de Asano continua magistral. Os fundos hiper-realistas, baseados em fotografias digitalmente alteradas, contrastam com o estilo mais “fofo” das personagens femininas. Esse contraste não é apenas estético; ele intensifica a tensão entre o real e o irreal, o absurdo e o comum.
As expressões faciais são particularmente evidentes durante os momentos de silêncio ou colapso emocional. Os quadros transmitem desespero, indiferença, niilismo e, paradoxalmente, beleza, com uma mise-en-scène dominante.
Temas em ebulição
A alienação assume uma forma concreta no volume 3. A guerra parece iminente, mas ninguém tem certeza contra quem. Os "invasores" continuam sendo praticamente imperceptíveis, o que leva a maior parte da violência a ser perpetrada pela própria humanidade. A narrativa da mídia, as forças armadas e o Estado começam a parecer mais perigosos do que os extraterrestres. A partir desse momento, essa é uma inversão significativa que se torna uma das características do mangá.
Veredito
O terceiro volume de Dead Dead Demon’s Dededede Destruction avança na criação da tensão e do discurso político da obra. Sem perder de vista as emoções adolescentes e a desconexão atual, Inio Asano acrescenta novas camadas de complexidade que tornam o mangá progressivamente mais perturbador. A normalidade oculta fissuras, e o leitor já começa a notar que algo — no céu ou no coração das personagens — está prestes a detonar.
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