A Menina do Outro Lado (Volume 4)

- Ficha Técnica

. Título original: とつくにの少女 (Totsukuni no Shoujo)
. Roteiro e Arte: Nagabe
. Gênero: Fantasia sombria, drama, fábula
. Editora: Mag Garden
. Editora: DarkSide Books

- Resenha

No quarto volume de A Menina do Outro Lado, Nagabe aprofunda a fábula sombria que vinha desenvolvendo e, simultaneamente, intensifica a relação simbiótica entre narrativa e arte — uma combinação que pode ser considerada o núcleo mais sofisticado da série.  Nesse contexto, texto e imagem não apenas coexistem, mas também se tornam interdependentes para criar significado e emoção.  Trata-se de um volume de transição, no qual a tensão latente do mundo dividido entre "puros" e "condenados" se insere de forma definitiva na relação entre Shiva e Sensei.

A narrativa utiliza o silêncio como um recurso dramático.  O roteiro do volume 4 é econômico, permitindo que o subentendido — medo, culpa, desconfiança — se manifeste nos gestos e nas pausas.  Essa opção é eficaz, pois o subtexto é apoiado pela arte de Nagabe: quando Sensei hesita diante de Shiva, a ilustração de seu corpo, curvado e pesado, comunica a angústia que as palavras não expressam.  O traço limpo e a composição contida funcionam quase como uma dança emocional.  O verdadeiro conflito se revela na separação física entre as personagens, acentuada pelos enquadramentos abertos: o cuidado e o perigo coexistem no mesmo ambiente.

A expansão do mundo, especialmente perceptível nas cenas com os humanos e autoridades religiosas, acentua o contraste entre a intimidade do casal e a violência externa.  As cenas em que o "lado humano" investiga a presença da menina são compostas por linhas mais rígidas, sombras sólidas e um enquadramento geométrico — elementos visuais que sugerem ordem, rigidez e paranoia.  Por outro lado, as sequências com Shiva e Sensei preservam o fluxo natural, com curvas mais suaves e sombras difusas.  Dessa forma, o mangá desenvolve duas linguagens visuais diferentes que representam duas maneiras de enxergar o mundo.

O horror também adquire uma nova perspectiva.  Nagabe utiliza o preto como uma textura emocional, densa e intrusiva, que prenuncia a ameaça da "maldição" que parece envolver Shiva.  Quando o autor mantém partes inteiras na escuridão, o roteiro não precisa nem mencionar o perigo: a imagem já o personifica.  A arte desempenha a função de anunciar mudanças — e, neste volume, elas estão próximas.

O clímax do volume reside precisamente nessa tensão entre proteção e perda, expressa pela arte de forma econômica e precisa.  A cada gesto cuidadoso de Sensei, contrasta a inevitabilidade da mudança que cerca Shiva.  O texto aborda o tema da maldição de forma superficial; já a arte o sugere em cada página, tanto no destaque aos olhos do Sensei quanto no aparecimento de figuras sombrias nos cantos da pintura.  O desenho não apenas retrata o roteiro; ele o enriquece, possibilitando que o leitor experimente o conflito antes de entendê-lo completamente.

No geral, o quarto volume comprova a maturidade estética de Nagabe.  A fusão de narrativa e arte gera um ritmo singular, uma forma melancólica de narrar que depende do espaço, do contraste e da sugestão.  O mangá se distancia de explicações e investe na força simbólica das imagens — e é nesse ponto que encontra sua eficácia.  Trata-se de um volume em que o drama se intensifica de forma silenciosa, apoiado pela sutileza gráfica e pela compreensão de que, nesse universo, até o carinho pode ser uma forma de risco.

Resenha dos volumes anteriores: A Menina do Outro Lado

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