- Ficha Técnica
. Título: Choujin X – Volume 1
. Roteiro e Arte: Sui Ishida
. Gênero: Ação dramática, fantasia urbana, seinen
. Editora original: Shueisha
. Editora brasileira: Panini
- Resenha
O primeiro volume de Choujin X, de Sui Ishida, introduz ao leitor uma obra que, apesar de conversar com a tradição dos mangás de superpoderes, adota desde o começo uma perspectiva mais literária, reflexiva e simbólica. Diferentemente da ação incessante que define o gênero, Ishida elabora o volume como uma análise psicológica de dois adolescentes comuns em um mundo extraordinário, convertendo o surgimento do poder em uma metáfora sobre identidade, trauma e sensação de inadequação.
O mangá começa com a introdução de Tokyo Kurohara e Ely Yodogawa, dois jovens comuns cujas vidas são marcadas pela mediocridade, frustrações e sensação de estagnação. Ishida enfatiza que a falha humana precede o heroísmo e que é desse vazio que as transformações emergem. Dessa forma, o primeiro volume se assemelha mais a um romance de formação do que a um shonen tradicional: a história segue o despertar interno antes do externo.
Quando Tokyo se transforma em um Choujin, a mudança não é somente física:
ela representa a quebra da conexão entre o indivíduo e o ambiente, a desarmonia entre o que se é e o que se aspira a ser. A monstruosidade começa a simbolizar o temor de viver, e não somente uma força obtida.
Ishida explora isso de forma visual com sua estética expressionista característica: rostos distorcidos, sombras intensas e composições fragmentadas. Da mesma forma que em Tokyo Ghoul, o autor emprega o grotesco não como um recurso para chocar, mas como uma extensão emocional da história.
O universo dos Choujin é apresentado de maneira não expositiva, sem fornecer ao leitor manuais, rankings, sistemas de poder ou explicações didáticas. O mundo é sentido antes de ser explicado, e essa escolha literária intensifica a sensação de estranhamento e descontrole vivida pelos personagens.
Ishida acredita na perspicácia do leitor e na profundidade do subtexto, possibilitando que a mitologia da obra se desenvolva de forma gradual, quase como um romance pós-moderno que estimula a interpretação.
O principal mérito narrativo do volume é reconhecer que Tokyo não se torna extraordinário apesar de suas imperfeições, mas por causa delas. A decisão que o transforma em Choujin é tomada em um momento de medo e desespero, e não de bravura.
Esse é um aspecto literariamente interessante: diferentemente do herói clássico, que ascende para proteger, Tokyo ascende por medo de ficar para trás. Seu poder surge de um conflito interno, e não de um ideal.
O autor emprega elementos gráficos, como o ritmo dos quadros, apagamentos, expressões exageradas, ruídos visuais e composições impactantes, para expressar estados mentais. Ishida descreve imagens como sentenças e utiliza a arte como pontuação emocional.
Os silêncios são tão significativos quanto os diálogos, e muitas páginas atuam como monólogos visuais que abordam a insegurança, o medo e a identidade.
Temas predominantes
1. Identidade fragmentada
2. A adolescência como zona liminar
3. O medo como motor da metamorfose
4. A monstruosidade como metáfora psicológica
5. O herói como resultado da falha e não da virtude
Esses elementos inserem Choujin X em uma tradição literária que se aproxima de obras existencialistas – protagonistas que não querem ser especiais, mas são empurrados para isso por forças que não controlam.
Enfim, o primeiro volume de Choujin X já mostra que Sui Ishida não está apenas seguindo a mesma fórmula que o tornou famoso com Tokyo Ghoul. Nesse caso, a narrativa é mais silenciosa, menos apressada e mais voltada para explorar o interior dos personagens do que para apresentar batalhas épicas logo de início.
Trata-se de um mangá que se desenvolve como uma literatura visual: uma reflexão acerca do desconforto de viver, do peso do cotidiano e do terror e da encantadora beleza da transformação.
Se continuar nessa direção, Choujin X tem o potencial de se estabelecer não só como um mangá de ação ou fantasia, mas também como uma obra que explora a experiência humana em sua forma mais delicada e contraditória.
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