Oshi no Ko (Volume 3)

- Ficha Técnica

. Roteiro: Aka Akasaka
. Arte: Mengo Yokoyari
. Editora original: Shueisha
. Publicação original no Japão: 2021
. Revista de publicação: Weekly Young Jump
. Demografia: Seinen
. Gêneros: Drama, mistério, psicológico, crítica social, vida no showbiz

- Resenha

O terceiro volume de Oshi no Ko representa um momento significativo de amadurecimento na narrativa da série.  Nesse ponto, Aka Akasaka aprofunda sua análise da indústria do entretenimento, convidando o leitor a refletir sobre a formação da imagem pública e suas implicações emocionais.  O roteiro não atua isoladamente: Mengo Yokoyari traduz essa dimensão dramática com precisão psicológica por meio de uma arte expressiva, inteligente e elaborada, criando um volume em que a linguagem visual e a narrativa se encontram de maneira exemplar.

O palco como espelho da alma

O arco deste volume se concentra no mundo das produções de televisão e nos impactos que a exibição da imagem pode causar aos participantes.  Akasaka, especialista em roteiros centrados na tensão psicológica, organiza a narrativa como um estudo sobre:

1. Pressão social e avaliação pública
2. A atuação como sobrevivência emocional
3. A falsa imagem do "eu perfeito" perante as câmeras

Há uma evolução dramática clara: o roteiro começa abordando o reality show como uma parte comum da indústria, mas gradualmente expõe o preço humano por trás de cada cena, cada edição e cada postagem nas redes sociais.

Essa dimensão ética e social não é exposta por discursos, mas por situações reais — o roteiro investe na dramaturgia do dia a dia e em experiências verossímeis que fortalecem a crítica, possibilitando que o leitor sinta, ao invés de apenas entender intelectualmente.

A Arte de Yokoyari

Enquanto o roteiro estrutura o drama, é a arte de Mengo Yokoyari que o concretiza de forma completa.

A quadrinista emprega três elementos com habilidade:

1. Expressões faciais como instrumentos de narração

Neste volume, os rostos "falam" antes das palavras. Pequenos gestos, como um desvio do olhar, um sorriso tenso ou uma microexpressão de quem está prestes a desabar, revelam camadas que o diálogo intencionalmente esconde. A narrativa visual revela a rigidez emocional que os personagens tentam esconder, fazendo com que o leitor participe do que os demais personagens dentro da diegese não percebem. 

2. Composição de quadros como crítica

Muitas páginas utilizam quadros estáticos que remetem a formatos televisivos. Yokoyari parece colocar o leitor "do outro lado da tela", enfatizando o tema principal do arco: a vida transformada em espetáculo. A arte não serve apenas para ilustrar o roteiro; ela interage com ele.

3. Uso dramático do branco e preto

As áreas de sombra e brilho atuam como extensões simbólicas do emocional,  cenas leves são mais descontraídas,  momentos de tensão usam quadros clínicos e pesados,  os espaços passam a ser psicológicos, além de físicos.  Essa transformação plástica amplifica o efeito do roteiro sem exagerar.

A integração entre roteiro e arte

Akasaka fornece a estrutura dramática, o desenvolvimento temático e a crítica social; Yokoyari transforma isso em vivência sensorial.  Além de informar o leitor, o mangá o coloca na mente dos personagens, retratando,  a angústia de ser percebido,  o receio de ser avaliado,  a insatisfação com a própria aparência,  a disputa entre o eu autêntico e o eu encenado.

Essa integração se manifesta de maneira evidente na forma como a obra constrói a experiência da humilhação pública: quando o roteiro descreve o ataque, é o rosto arrasado do personagem, a página em branco, o olhar despedaçado que possui a força trágica da cena. Sem a arte, o roteiro teria uma estrutura sólida, porém seria mais impessoal. Sem o roteiro, o traço poderia ser bonito, porém talvez sem rumo. Em conjunto, eles constituem um estudo psicológico sólido e sofisticado.

Conclusão

O volume 3 de Oshi no Ko exemplifica como o mangá pode atingir uma sofisticação estética e literária quando texto e imagem funcionam como uma unidade inseparável.  Akasaka cria o drama; Yokoyari o torna emocional.  Além de progredir na narrativa, o livro também avança em seu projeto crítico: revelar o glamour e o sacrifício por trás do palco.

Trata-se de um volume emocionalmente intenso, porém artisticamente excepcional, que solidifica Oshi no Ko como uma das produções contemporâneas mais sofisticadas a abordar o peso de viver sob os olhos do público.

Comentários