Pluto (Volume 2)

- Ficha Técnica

. Autor: Naoki Urasawa
. Coautoria / Cooperador: Takashi Nagasaki
. Supervisão: Makoto Tezuka (Tezuka Productions)
. Obra original: Inspirado no arco The Greatest Robot on Earth de Astro Boy (Tetsuwan Atom) de Osamu Tezuka
. Gênero: Ficção científica, Mistério, Thriller, Drama
. Demografia: Seinen

- Resenha

O segundo volume de Pluto solidifica o ritmo e o clima emocional que Urasawa definiu no começo da série, aprofundando a investigação de Gesicht ao mesmo tempo em que amplia as repercussões humanas e políticas dos assassinatos que continuam ocorrendo.  Este volume se destaca pela sua eficácia, pois o roteiro, sempre conciso, utiliza a arte como ferramenta para intensificar a tensão, evocar emoções e organizar a narrativa de maneira quase cinematográfica.  Urasawa não explica; ele demonstra.  E é nesse contexto que a combinação de texto e imagem se transforma no principal eixo estético do volume.

A evolução da história — com a introdução mais marcante de personagens como Brando, North Nº2 e a menção cada vez mais presente de um trauma de guerra global — é contada em um tom contido.  As conversas são curtas, e os diálogos atuam como pequenas brechas por onde se esvaem o medo, a desconfiança e a melancolia.  Porém, é a arte que expõe o que os personagens não dizem.  Em cada cena doméstica ou íntima, Urasawa utiliza quadros amplos, espaços vazios e gestos contidos, como se o silêncio fosse um elemento fundamental da narrativa.  Esses momentos visuais conferem aos robôs uma carga emocional, fazendo com que pareçam menos máquinas e mais entidades com um passado — tudo isso sem a necessidade de qualquer discurso explicativo.

A iluminação permanece sendo um elemento fundamental.  O segundo volume aprofunda o uso de sombras longas e contrastes marcantes para criar uma atmosfera de incerteza.  Cada cenário — seja uma casa tranquila, um campo de batalha relembrado, um escritório impessoal da Europol — é construído como uma extensão emocional do personagem que o habita.  A arte expressa estados internos: a solidão de Gesicht se manifesta em corredores desocupados; a rigidez militar de North Nº2 é acentuada por enquadramentos geométricos e composições rígidas; por outro lado, a humanidade emergente de Brando se revela em gestos simples, porém significativos, como a forma como ele se inclina, observa e hesita.  O roteiro apenas sugere; o desenho declara.

Aqui, a conexão entre memória e imagem se torna ainda mais clara.  Urasawa alterna entre presente e passado por meio de alterações discretas na textura, granulação e fluidez.  Os flashbacks apresentam bordas menos nítidas ou contrastes mais suaves, como se estivessem prestes a se dissipar.  Não existe uma indicação textual que sinalize a mudança temporal; é a arte que executa a transição, levando o leitor a se inserir na memória como um personagem que revive o trauma de forma descontrolada.  Essa integração é particularmente intensa nas cenas que retratam a guerra, nas quais o roteiro oferece poucas descrições, mas a composição visual transmite o horror de maneira quase sensorial.

A violência ressurge no volume como uma interrupção brusca do fluxo narrativo, e Urasawa emprega isso de forma estratégica.  Depois de longos momentos silenciosos e reflexivos, a ação irrompe com cenas intensas, traços rápidos e composições fragmentadas que quebram a estabilidade emocional construída até aquele ponto.  A quebra do ritmo não é somente uma opção estética; ela atua como um comentário narrativo, enfatizando a vulnerabilidade do mundo em que esses personagens habitam.  O volume todo é caracterizado por uma tensão entre quietude e choque, contemplação e ruptura, criando um cenário instável no qual humanos e robôs buscam sentido em meio ao trauma.

Desse modo, o segundo volume de Pluto não só dá continuidade à trama policial, como também aprofunda o cerne temático da série.  Texto e imagem se entrelaçam para criar uma leitura que é tanto intelectual quanto sensorial, conduzida por silêncios, sombras e memórias que permanecem.  O resultado é uma experiência narrativa sofisticada, na qual a arte não apenas complementa o roteiro, mas também o transcende, proporcionando ao leitor uma imersão emocional e visual que prepara o caminho para o impacto crescente dos volumes subsequentes.

Resenha dos volume anteriores: Pluto

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