- Ficha Técnica
. Roteiro e Arte: Sui Ishida
. Gênero: Ação dramática, fantasia urbana, seinen
. Editora original: Shueisha
. País de origem: Japão
. Editora brasileira: Panini
- Resenha
No segundo volume de Choujin X, Sui Ishida expande o que o primeiro apenas sugeriu: a noção de que a história não existe isolada da imagem, mas surge do atrito contínuo entre texto, ritmo e composição visual. Se o primeiro volume abordava o despertar e o receio de mudança, o segundo volume altera o foco para a instabilidade, investigando um universo onde identidade e poder são forças igualmente caóticas.
A narrativa avança mais por sensações do que por explicações. Ishida rejeita uma evolução convencional de treinamento ou absorção de poder. Em vez disso, o roteiro segue Tokyo em um estado constante de desestabilização, e a arte intensifica essa sensação ao abrir mão de qualquer compromisso com a regularidade visual. A falta de controle do protagonista sobre seu próprio corpo e sua posição no mundo é refletida por meio de quadros irregulares, cortes abruptos e páginas visualmente congestionadas.
A figura de Azuma Higashi assume um papel mais central, servindo como reflexo narrativo e visual de Tóquio. Ao passo que o roteiro desenvolve Azuma como um personagem que anseia por singularidade, a arte o apresenta com maior solidez: posturas firmes, silhuetas nítidas e composições mais tradicionais. Por outro lado, Tokyo é geralmente fragmentado — parcial, distorcido e capturado em ângulos oblíquos. Essa contrapartida visual não é meramente decorativa; ela retrata de forma silenciosa o embate entre a aspiração à grandeza e o receio da mudança.
Nesse caso, o uso do grotesco desempenha uma função estrutural. Ishida distorce corpos, exagera expressões faciais e fragmenta anatomias não só para provocar impacto, mas também para representar estados psíquicos de forma literária. O horror visual emerge como uma linguagem emocional: à medida que o conflito interno aumenta, o traço se torna mais instável. Em várias cenas, a arte adota um aspecto quase expressionista, no qual o mundo parece se dobrar à dor dos personagens.
O controle do ritmo é outro aspecto digno de nota. Ishida intercalam páginas densas, cheias de informações visuais, com longos silêncios, nos quais poucas palavras e imagens minimalistas mantêm a tensão. Esse contraste gera uma leitura dinâmica, na qual o tempo da narrativa se expande e se contrai de acordo com o clima emocional da cena. O leitor não só acompanha os acontecimentos, como também os vivencia fisicamente na página.
A apresentação do mundo dos Choujin ainda é fragmentada, e essa decisão tem um impacto direto na arte. Não existem mapas, diagramas ou exposições claras; há apenas ruínas visuais, ambientes sufocantes e espaços que parecem estar constantemente à beira do colapso. O roteiro propõe mais do que declara, ao passo que a arte mantém essa ambiguidade com cenários que aparentam ser incompletos ou intencionalmente caóticos.
No segundo volume, também se reforça a noção de que o poder em Choujin X não é libertador, mas expositivo. Ele expõe fragilidades, medos e anseios escondidos. Visualmente, isso se manifesta na dificuldade de manter uma forma estável: corpos que se desintegram, se reconstituem ou se tornam ameaçadores até para quem os possui. A narrativa verbal acompanha esse processo sem tentar amenizá-lo, preservando o tom reflexivo e inquieto.
Assim, Choujin X Volume 2 se afirma como uma obra em que roteiro e arte são indissociáveis. O que não é dito em palavras é gritado pelas imagens; o que não é mostrado claramente é sugerido pelo silêncio gráfico. Sui Ishida constrói uma experiência de leitura em que o caos não é falha de organização, mas método narrativo — uma escolha estética coerente com personagens que ainda não sabem quem são, nem no que estão se transformando.
Como resultado, temos um volume mais maduro, embora menos acessível, que demanda uma leitura cuidadosa e oferece ao leitor uma narrativa visual intimamente ligada à psicologia de seus personagens. Choujin X evidencia que sua potência não reside na garantia de respostas, mas na bravura de permanecer na incerteza.
Resenha dos outros volumes: Choujin X
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