- Ficha Técnica
. Autor: Naoki Urasawa
. Editora original: Shogakukan
. Gênero: Thriller psicológico, suspense, drama
. Demografia: Seinen
. Editora: Panini Comics Brasil
- Resenha
O segundo volume kanzenban sinaliza a transição definitiva de Monster de um drama hospitalar para um thriller de escala continental. Ainda de forma comedida, o roteiro se sustenta em escolhas morais irreversíveis: Tenma entende que salvar Johan não foi somente um equívoco clínico, mas o início de uma monstruosidade histórica. Contudo, Urasawa não expressa nada disso; é a arte que rompe a superfície da narrativa.
Os enquadramentos longos, especialmente aqueles que isolam Tenma em estradas, trens ou prédios anônimos, ampliam a sensação de que o protagonista já não pertence a nenhum lugar. Essa solidão gráfica sustenta a evolução interna dele muito mais do que qualquer monólogo. É um uso maduro da mise-en-scène no mangá: o cenário transforma o estado emocional em estrutura narrativa.
Simultaneamente, Johan começa a aparecer não como um personagem presente, mas como uma ausência perturbadora. Urasawa é retratado quase sempre de costas, parcialmente escondido ou envolto por sombras retangulares que remetem a fendas. A escolha visual está em sintonia com o roteiro: Johan é mais um catalisador de culpa do que um indivíduo, um eco que Tenma busca silenciar. O roteiro é sucinto; a arte é excessivamente sugestiva. O resultado é uma combinação incomum: a narrativa mantém o mistério, enquanto a arte o personifica.
Um dos aspectos mais marcantes do volume é a forma como Urasawa dramatiza a investigação criminal. Os detetives não agem baseados em pistas claras, mas em expressões, suspeitas e olhares tortos — cada movimento se transforma em parte do enredo. A decupagem visual converte a rotina policial em uma dança de desconfianças, ao passo que o roteiro utiliza esse silêncio expressivo para intensificar o suspense. Desse modo, a investigação passa a ser mais psicológica do que factual.
Outro ponto positivo é a utilização do ritmo visual. Em várias sequências, Urasawa reduz a quantidade de quadros por página, cria pausas e permite que as sombras ocupem espaços maiores. Não se trata apenas de estética, mas da expansão do tempo interno da narrativa. Esses momentos de silêncio permitem que o leitor vivencie o horror moral que Tenma enfrenta, como se estivesse fugindo ao virar cada página.
A kanzenban, com sua impressão de alta qualidade, enfatiza ainda mais essa dinâmica. A gradação de cinzas e a textura das sombras tornam-se mais nítidas, fazendo com que detalhes como um gesto de mão, a expressão vazia de um figurante e o peso do cenário passem a ser elementos narrativos por si só. A reedição destaca o que sempre esteve presente: Monster é um mangá cujo significado está oculto em pequenos gestos e microexpressões.
No encerramento do volume, a integração entre narrativa e arte atinge um ponto de maturidade impressionante. Tenma toma decisões que o afastam definitivamente da vida convencional, e Urasawa registra isso com páginas quase estáticas, onde o silêncio gráfico substitui o diálogo. Aqui, a imagem não acompanha a narrativa: ela é a narrativa. A moralidade do protagonista só faz sentido porque o visual a dramatiza com precisão cirúrgica.
Resenha dos outro volumes: Monster
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