Monster (Volume 3)

- Ficha Técnica

. Título: Monster – Edição Kanzenban Vol. 3
. Autor: Naoki Urasawa
. Editora original: Shogakukan
. Gênero: Thriller psicológico, suspense, drama
. Demografia: Seinen
. Editora: Panini Comics Brasil

- Resenha

O terceiro volume de Monster marca um momento crucial na obra de Naoki Urasawa. Nos volumes anteriores, o suspense era criado pela ausência — pelo que não era visível nem plenamente compreendido —, mas neste volume a trama confronta o trauma diretamente, e a arte acompanha essa mudança com uma sofisticação ainda mais controlada. O roteiro e a imagem deixam de funcionar em tensão discreta e começam a atuar em sincronia dramática, intensificando o efeito psicológico da leitura.

Desde as páginas iniciais, o roteiro deixa de lado a estrutura exclusivamente investigativa e se aprofunda na memória fragmentada dos personagens. Urasawa desenvolve o progresso da trama não por revelações impactantes, mas por fragmentos — narrativas incompletas, memórias truncadas, silêncios significativos. Essa opção narrativa se reflete diretamente na construção visual: quadros irregulares, transições bruscas entre cenas e o uso frequente de enquadramentos fechados geram a impressão de que o passado irrompe no presente sem aviso.

Neste volume, Johan deixa de ser somente um fantasma narrativo e começa a ganhar profundidade simbólica. Visualmente, Urasawa enfatiza essa transformação ao permitir que Johan tenha mais espaço nos quadros, porém nunca de maneira confortável. Seu rosto, apesar de mais visível, mantém uma neutralidade inquietante. O roteiro evita explicações psicológicas simplistas, enquanto a arte rejeita qualquer forma de dramatização excessiva. O terror surge exatamente dessa contenção: Johan é retratado como alguém completamente inserido no mundo, e é essa normalidade visual que faz com que sua presença seja tão ameaçadora.

Além disso, o volume aprofunda o arco dos personagens secundários, e a integração entre narrativa e arte se mostra exemplar. Urasawa dedica páginas inteiras a personagens aparentemente secundários, tornando seus gestos cotidianos narrativamente relevantes. A câmera gráfica se detém em mãos, olhares e posturas corporais — componentes que substituem diálogos explicativos. O roteiro utiliza a imagem de forma eficaz para evocar sentimentos como empatia, medo ou suspeita, fazendo com que cada personagem pareça ter uma história rica, mesmo quando suas falas são escassas.

Um dos elementos mais notáveis deste volume é a utilização do espaço urbano europeu como componente narrativo. As ruas, edifícios, estações e interiores são retratados com uma precisão quase documental, porém dispostos de forma a evocar sensações de claustrofobia e desorientação. A arte não é apenas um elemento de ambientação; ela representa visualmente a ideia central do roteiro: personagens aprisionados em sistemas sociais e memórias dos quais não conseguem se libertar. Dessa forma, a cidade se transforma em uma extensão do conflito psicológico.

O ritmo visual do volume 3 é mais pausado, mas também mais pesado. Urasawa amplia os momentos de silêncio, usando páginas com poucos quadros ou grandes áreas de sombra. Essa desaceleração não interrompe a tensão; ao contrário, intensifica-a. O leitor é obrigado a permanecer mais tempo em cenas desconfortáveis, acompanhando o peso moral das decisões dos personagens. O roteiro propõe o dilema; a arte obriga o leitor a senti-lo.

Na edição kanzenban, essa conexão fica ainda mais clara. A qualidade do papel e da impressão enriquece o trabalho de luz e sombra, possibilitando que sutilezas de expressão e textura adquiram maior impacto narrativo. Na construção do suspense, pequenos detalhes, como um sorriso contido, um olhar vazio ou um corredor mal iluminado, desempenham um papel estrutural.

Ao término do volume, Monster deixa de ser somente a narrativa de um médico em busca de um criminoso. O roteiro expande a perspectiva para uma reflexão acerca da identidade, infância e violência institucional, ao passo que a arte sustenta essa expansão sem utilizar símbolos evidentes ou soluções gráficas impressionantes. A combinação de narrativa e imagem alcança aqui um nível de maturidade que valida Monster como uma obra em que o significado reside não só no que é narrado, mas também na forma como é vivenciado visualmente.

O terceiro volume kanzenban estabelece Monster como um thriller psicológico de precisão incomum, em que roteiro e arte funcionam como uma única engrenagem. Este é um volume que se concentra menos na ação e mais na introspecção, porém, por esse motivo, é ainda mais perturbador — e fundamental para entender a dimensão ética e estética do trabalho de Naoki Urasawa.

Resenha dos outros volumes: Monster

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