Vinland Saga (Volume 4)

- Ficha Técnica

. Roteiro e Arte: Makoto Yukimura
. Editora (Brasil): Panini Comics
. Formato: Edição Deluxe (2 em 1)
. Conteúdo: Reúne os volumes japoneses equivalentes aos capítulos que abrangem o final do arco da guerra e o início da transformação política de Canuto (conteúdo do vol. 7–8 no original)
. Gênero: Ação, Drama Histórico, Guerra

- Resenha

Neste volume, Makoto Yukimura aprofunda a transição do épico de guerra para o drama político, e a força desse trecho da saga está precisamente na maneira como o roteiro e a arte se entrelaçam para criar uma tensão histórica, uma profundidade emocional e uma sensação contínua de movimento — tanto físico quanto psicológico.

A história prossegue acompanhando os desdobramentos do cerco ao trono inglês, com Canuto, Thorkell e Askeladd orbitando a trajetória violenta de Thorfinn.  Yukimura constrói esse arco como um jogo de xadrez tenso, em que alianças frágeis e escolhas estratégicas têm mais peso do que a força bruta.  O roteiro prioriza diálogos breves, repletos de implicações — principalmente nas interações entre Askeladd e Canuto —, e é na arte que essas sutilezas adquirem profundidade: expressões contidas, enquadramentos silenciosos e pausas visuais transmitem o que não é verbalizado.

A integração narrativa-visual se destaca em três frentes centrais:

1. O amadurecimento involuntário de Thorfinn

O roteiro retrata um jovem à beira de um colapso moral, mas é esse aspecto que revela a contradição: a postura inflexível, o olhar cada vez mais vazio e os close-ups em seu rosto durante os duelos indicam um garoto que batalha mais contra si mesmo do que contra o adversário.  Yukimura emprega linhas contornadas e sombras marcantes para acentuar a angústia que o personagem não expressa verbalmente.  A arte leva a leitura a compreender que a violência não é mais uma opção, mas uma condição de vida.

2. A metamorfose de Canuto

O volume sinaliza o começo da metamorfose do príncipe delicado em uma figura política assertiva.  Yukimura alterna o texto introspectivo com composições visuais que evidenciam a transformação: Canuto deixa de ser uma silhueta tímida em planos abertos e passa a ter um rosto mais destacado em enquadramentos centralizados, simbolizando uma firmeza que surge.  Apenas a narrativa textual não seria suficiente para sustentar essa mudança; é a cadência visual que evidencia a construção de autoridade.

3. Askeladd como eixo dramático

Askeladd continua sendo o personagem mais complexo, e Yukimura utiliza a arte para realçar seu caráter ambíguo.  O roteiro indica segundas intenções, porém os painéis mostram muito mais: sorrisos tortos, gestos sutis e a maneira como ele ocupa o espaço nos quadros — nunca completamente dominante, nem totalmente submisso — reforçam sua imagem como manipulador e calculista, mas também como alguém aprisionado por um passado opressivo.  Cada cena com ele é elaborada com um ritmo e uma composição projetados para gerar tensão entre confiança e perigo.

Visualmente, até este ponto da saga, o volume é um dos mais impactantes.  As lutas são coreografadas com uma precisão quase documental, levando em consideração o peso das armas, o impacto dos golpes e o uso inteligente das linhas de movimento.  Yukimura evita exageros estilísticos e opta por um realismo contundente, proporcionando ao leitor a impressão de estar presenciando acontecimentos históricos em vez de um espetáculo fantasioso.  Simultaneamente, os cenários — vilarejos destruídos, florestas cobertas de neve, acampamentos militares — expandem a escala épica da disputa, colocando os personagens em um universo amplo e hostil, fundamental para a construção temática da obra.

Assim, o volume 4 é fundamental: nele, a narrativa e a arte se unem para demonstrar que a guerra em Vinland Saga vai além da ação, sendo um processo que forma identidades, arruína inocências e altera destinos políticos.  Yukimura exibe total controle do ritmo visual, empregando pausas, silêncios e expressividade para complementar um roteiro sucinto, repleto de tensões internas.  O resultado é um capítulo que mescla drama humano, intrincadas questões políticas e brutalidade histórica com uma coerência notável — um dos momentos mais impactantes da narrativa até o presente ponto.

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